O ensino de uma língua segunda ou uma língua estrangeira deve ser um ensino adequado às necessidades do aprendente. Num mundo multicultural, o contacto com as outras culturas visa-se, não só necessário , mas vital, à mútua compreensão. Para que se permita que a globalização não nos descaracterize na nossa individualidade, e para validar a própria cultura, este é um blog dedicado ao ensino da língua e cultura portuguesa.
Adaptado para um nível inicial A1/A2 Tema: Rotina Compreensão oral e conversação:
In. TAVARES, Ana: Português XXI, (cd-áudio), Lisboa, Lidel, 2003
Ouça o texto A e complete os espaços em branco:
O Pedro ____________ às sete horas da manhã. Às __________ele vai tomar o pequeno almoço. Ele come ________ e ____________________________. Ele trabalha numa _____________ no centro da ________, com a função de __________. Às treze e um quarto ele _________ com __________. Ele está a __________________ numa escola de línguas, mas só tem aulas às ________________, às dezoito _______. À noite é _____ que faz o jantar e _______ sempre às dez da noite. No fim-de-semana, vai às compras ao _______ de _______, e à tarde _________________. De ________ ele sai com _________ e __________ tarde. Ao Domingo ele levanta-se ______________ e _________ com os pais.
Ouça o texto B e diga se é verdadeiro ou falso:
O narrador é um homem. _____ A Isabel é médica.______ A Isabel trabalha em Lisboa.______ Ela tem um marido._____ Ela não tem filhos._____ Ela levanta-se cedo todos os dias.____ Ela toma banho depois de se levantar.____ Todos fazem o pequeno almoço._____ O marido leva os miúdos para a escola._____ O trabalho dela inicia-se às nove horas.______ A Isabel pode voltar cedo do almoço às segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras._____ Ela faz desporto às terças-feiras e quintas-feiras, de tarde._____ Ela janta com a família._______ Durante o jantar, é proibido conversar._____ Deitam-se todos às onze horas da noite._____ Antes de dormir, os pais gostam de ler ou ver televisão._______ No fim de semana, a família vai para o Litoral. ______ No fim de semana eles podem ir à praia.________
De noite, na cama, visto o ________. De manhã, vou correr e visto o meu __________. Depois, visto o _________ para usar no trabalho, no banco. Se sair de noite para a ópera, visto o ______________.
Diga a cor dos fatos:
Em viagem para a Serra da Estrela, que roupa da lista levavas contigo?
Os pontos cardeais servem para indicar a orientação.
Os mais conhecidos são:
o Norte
o Sul
o Este (ou leste)
o Oeste
Uma rosa-dos-ventos mostra estes e mais pontos cardeais. É um esquema com a forma de estrela, que a partir do norte, ponto mais importante pois indica o pólo magnético nas bússolas, apresenta todos os restantes pontos cardeais (principais ou cardeais e colaterais).
Todos os mapas devem apresentar, pelo menos, um ponto cardeal (o norte) e a escala (que mostra a proporção).
Num mapa podemos ver o que fica a Norte e o que fica a Sul.
Por exemplo: Portugal fica a Sudoeste da Europa. Inglaterra fica a Norte de Portugal. Palermo fica no Sul de Itália.
Assim:
Teoria Gramatical:
Sintaxe
Verbo "Ficar" (no presente do indicativo) + "em" (preposição) (+ contracção do artigo definido) = localização espacial dentro do segundo espaço mencionado
Ex: Os Anjos ficam em Lisboa. Camarate fica no norte de Lisboa. Belém fica na zona sul de Lisboa.
V. "Ficar" (no pres. do ind.) + "a" (prep.) = localização espacial relativa ao segundo espaço mencionado
Ex: A Rússia fica a Este da Europa. O Egipto fica a Norte de África. As ilhas das Berlengas ficam a Oeste de Peniche
Verbo "Ficar" no Presente do Indicativo (V. "Ficar" Pres. Ind.)
Complete, utilizando o mapa de Portugal e os pontos cardeais, as seguintes frases:
Bragança fica no Nordeste de Portugal.
Lisboa fica a ______ de Leiria.
O Minho fica a _____ do Porto.
O Algarve fica a _____ de Espanha.
O Porto fica no _____ de Portugal.
Beja fica a ____ de Évora.
Guarda fica a _____ de Aveiro.
Complete, utilizando o mapa de Portugal e a preposição "em" ou "a" e, caso seja necessário, a contracção do artigo definido correcto, as seguintes frases:
O Bilhete de Identidade é o documento oficial de identificação. Todos os portugueses, por volta dos oito anos, vão pela primeira vez pedir a emissão do seu BI.
O bilhete de identidade tem vários campos que servem como elementos identificativos de cada indivíduo.
A parte da frente do bilhete de identidade, identifica visualmente, cada pessoa, por:
fotografia;
impressão digital;
e assinatura cada pessoa.
Sem excepção, todos os portugueses têm de tirar o bilhete de identidade. Este é um documento que serve fins burocráticos, mas também para a identificação junto às figuras de autoridade.
Se o Bin Laden fosse português, também ele teria um bilhete de identidade.
Na parte de trás do bilhete de identidade, estão inscritas diversas informações:
o número de BI;
a data e local de emissão;
o nome completo do indivíduo;
os nomes completos de seus pais;
o local de nascimento, ou naturalidade;
o local de residência actual;
a data de nascimento;
o estado civíl;
a altura;
a validade do cartão identificativo;
e um espaço para eventuais indicações.
Léxico essencial:
Identificação
Indivíduo
Naturalidade
Residência
Emissão (cf. polissemia)
Validade
Expressões essenciais:
Bilhete de identidade
Elementos identificativos
Dados pessoais
Impressão digital
Data de nascimento
Estado civil
Figuras de autoridade
Exercício:
Agora que viste como é um bilhete de identidade português, numa folha, faz o teu próprio BI, preenchendo os teus dados.
"Assinale se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F).
O primeiro bilhete de identidade é gratuito para todos os cidadãos.
A renovação do bilhete de identidade é sempre paga."
In. Teste de conhecimento de língua portuguesa (maiores de 15 anos), Janeiro de 2007
Todas as famílias podem ser diferentes. Umas mais numerosas, outras mais pequenas; umas mais chegadas, outras mais distantes; umas têm uma casa, outras duas. A noção de família é diferente de pessoa para pessoa, pois cada um de nós vive realidades diferentes. A maioria das famílias são unidas por laços de sangue, mas outras são constituídas por irmãos de diferentes pais, vários filhos adoptados, por duas mães, por tios que nos criam... Cada família é uma realidade.
Léxico essencial:
Pai (s)
Mãe (s)
Filho (a) (s)
Irmão (s)
Irmã (s)
Avô (s)
Avó (s)
Tio (a) (s)
Sobrinho (a) (s)
Primo (a) (s)
Expressões essenciais:
Núcleo familiar
Exercício:
Observa a imagem em baixo e preenche os espaços em branco.
Tema: Dias da semana, meses do ano, estações e datas.
Como vimos anteriormente, a semana é constituída por cinco dias de trabalho e dois de fim-de-semana:
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo
Agora vamos ver os meses do ano. Em geral, podemos dividir o ano em meses e estações. Os meses são doze:
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
As estações do ano são quatro:
Primavera
Verão
Outono
Inverno
A primavera começa a 21 de Março (dia da árvore) até 20 de Junho. O verão vai de 21 de Junho a 22 de Setembro. De 23 de Setembro a 20 de Dezembro é Outono. Por fim, de 21 de Dezembro a 20 de Março é Inverno.
(com referente no Inglês)
Agora que já vimos os dias da semana, do mês, as estações e os números, torna-se mais fácil falar sobre datas.
Por exemplo, em português, ao pode-se perguntar qual o dia corrente:
Que dia é hoje?/ Em que dia é que estamos?/ Estamos a quantos?
Ao que se responde :
Hoje é dia dezassete de Maio. / Hoje é sábado. Hoje é (dia) catorze de Setembro. / Hoje é quinta-feira. / Hoje é quinta.
Mas também pode surgir uma pergunta de carácter pessoal como a data de aniversário:
Quando é que fazes anos?/ Qual a tua (sua) data de nascimento?/ Quando é o seu (teu) aniversário?*
Ao que se responde, por exemplo:
Eu faço anos no dia treze de Dezembro. / Eu nasci a vinte e um de Fevereiro. / Os meus anos são a nove de Março.
*Esta última forma é mais comum no português do Brasil, tendo-se em Portugal a primeira forma como preferencial.
Exercício:
"Assinale se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F).
Os cursos têm datas iguais, mas horários diferentes.
As inscrições para os cursos acabam no dia 4 de Junho."
In. Teste de conhecimento de língua portuguesa (maiores de 15 anos), 19 de Maio de 2007
Adaptado para um nível inicial A1/A2 Tema: Numerais cardinais
(com referente no Inglês)
Os numerais podem ser cardinais, ordinais, multiplicativos e fraccionários.
Hoje vamos-nos debruçar sobre os numerais cardinais.
"Os numerais cardinais são os números básicos. Servem para designar:
a) a quantidade em si mesma, caso em que valem por verdadeiros substantivos
Dois e dois são quatro.
b) uma quantidade certa de pessoas ou coisas, caso que acompanham um substantivo à semelhança dos adjectivos:
Geraldo levantou-se, deu três passos para a frente. (Osman Lins, FP, 158.) - Botou a cinco cântaros o mel... e a dois lagares o azeite. (Aquilino Ribeiro, M, 44.)"
In. CINTRA, Luís F. Lindley; CUNHA, Celso: Nova gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1997, p. 367
Vamos, então, comparar os numerais arábicos com os cardinais:
0. zero
um
dois
três
quatro
cinco
seis
sete
oito
nove
dez
onze
doze
treze
caquatorze
quinze
dezasseis ou dezesseis
dezassete ou dezessete
dezoito
dezanove ou dezenove
vinte
A partir daqui, junta-se o numeral das dezenas com o das unidades, utilizando, para uni-las, a conjunção [e]. Por exemplo:
23 » vinte (dezenas) e três (unidade)
Assim temos:
30. trinta 40. quarenta 50. cinquenta 60. sessenta 70. setenta 80. oitenta 90. noventa 100. cem (ou cento, quando associado a outro valor que não o redondo 100)
Também a partir daqui, se junta as centenas às dezenas e unidades, sempre separado pela conjunção [e]. Assim:
A partir do milhar conta-se as unidades de milhar, dezenas de milhar centenas de milhar, até ao milhão (1.000.000). Como por exemplo:
4567. quatro mil, quinhentos e sessenta e sete 87453. oitenta e sete mil, quatrocentos e cinquenta e três 785498. setecentos e oitenta e cinco mil, quatrocentos e noventa e oito
(com referente no Inglês)
TEORIA GRAMATICAL: "Flexão dos numerais. Cardinais:
1. Os NUMERAIS CARDINAISum, dois, e as centenas a partir de duzentos variam em género:
um - uma dois - duas duzentos - duzentas trezentos - trezentas
2.Milhão, bilião (ou bilhao), trilhão, etc. comportam-se como substantivos e variam em número: dois milhões vinte trilhões
3.Ambos, que substitui o cardinal os dois, varia em género:
ambos os pés - ambas as mãos
4. Os outros CARDINAIS são invariáveis. (...)
Valores e empregos dos cardinais.
1. Na lista dos CARDINAIS costuma-se incluir zero (0), o que equivale a um substantivo, geralmente usado em aposição:
grau zero; desinência zero
2.Cem, forma reduzida de cento, usa-se como adjectivo invariável:
Cem rapazes; cem meninas
Cento é também invariável. Emprega-se hoje apenas:
a) na designação dos números entre cem e duzentos
cento e dois homens; cento e duas mulheres
b) precedido do artigo, com valor substantivo:
Comprou um cento de bananas. ; Pagou caro pelo cento de peras.
c) na expressão cem por cento.
3. Usa-se ainda conto (antigamente = um milhão de réis) no sentido de «mil escudos» (em Portugal) (...)
4. Bilião (que também se escreve bilhão, principalmente no Brasil), significava outrora «um milhão de milhões», valor que ainda conserva em Portugal (...). No Brasil (...) representa hoje «mil milhões». (...)
Cardinal como indefinido.
O emprego do número determinados pelo indeterminados é um processo de superlativação preferidos pelas línguas românicas. Sirva de exemplo o cardinal mil, desde os começos da língua largamente usado para expressar e indeterminação exagerada:
Em Abril, chuvas mil[ou «em Abril, águas mil»]
Emprego da conjunção e com os cardinais.
1. A conjunção e é sempre intercalada entre as centenas, dezenas e unidades:
trinta e cinco trezentos e quarenta e nove
2. Não se emprega a conjunção entre os milhares e as centenas, salvo quando o número terminar numa centena com dois zeros:
1892= mil oitocentos e noventa e dois 1800= mil e oitocentos
3. Em números muito grandes, a conjunção e emprega-se entre os membros da mesma ordem de unidades, e omite-se quando se passa de uma ordem para a outra:
293 572 =duzentos e noventa e três mil quinhentos e sessenta e dois 332 415 741 211 = trezentos e trinta e dois biliões (ou bilhões), quatrocentos e quinze milhões, setecentos e quarenta e um mil duzentos e onze. ".
Ibidem, pp.371-373
(com referente no Inglês)
Temas abordados:
Números
Numerais cardinais
Cardinal como indefinido
Conjunção e
Provérbio "Em Abril, águas mil."
Exercício:
Ouça o texto e escreva os números que são enunciados.
Obs. 1ª O monossílabo cais é invariável. (...) 2ª Como os paroxítonos em -s, os poucos substantivos existentes em -x são invariáveis: o tórax- os tórax (...)
3. Os substantivos terminados em -al, -el, -ol e -ul substituem no plural o -l por -is:
Obs. Exceptuam-se as palavras mal, real (moeda) e cônsul e seus derivados, que fazem, respectivamente, males, réis, cônsules e, por este, procônsules, vice-cônsules.
4. Os substantivos oxítonos terminados em -il mudam o -l em -s:
(...) covil- covis; funil - funis (....)
5. Os substantivos paroxítonos terminados em -il substituem esta terminação por -eis:
(...) fóssil - fósseis; réptil - répteis (...)
6. Nos diminutivos formados com sufixos -zinho e -zito, tanto o substantivo primitivo como o sufixo vão para o plural, desaparecendo, porém, o -s do plural do substantivo primitivo. Assim:
2. Outros substantivos existem que se usam habitualmente no singular. Assim os nomes de metais e os nomes abstractos: ferro, ouro, cobre; fe, esperança, caridade. Quando aparecem no plural, têm de regra em sentido diferente. Comparem-se, por exemplo cobre (metal) a cobres (dinheiro), ferro (metal) a ferros (ferramentas, aparelhos)."
In. CINTRA, Luís F. Lindley; CUNHA, Celso: Nova gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1997, pp.185-187 Exercício: Faça a correspondência do plural:
[-ão] » [-ões] (maioria das palavras e também aumentativos com esta terminação) [-ão] » [-ães] (algumas palavras) [-ão] » [-ãos] (certas palavras graves e agudas)
Algumas formas ainda não se fixaram e podem ter múltiplos plurais.
Vogal (V)- "n substantivo feminino 1 Rubrica: fonética. som da fala em cuja articulação a parte oral do canal de respiração não fica bloqueada nem constrita o bastante para causar uma fricção audível 2 Rubrica: acústica, fonética. som da fala em que há o elemento voz, ou seja, um som musical, formado de um tom fundamental e harmônico 3 Rubrica: lingüística, ortografia. cada uma das letras que representam os fonemas vocálicos de uma língua [Em português são cinco: a, e, i, o, u.]"
Glide (G) -"1 som de transição, não distintivo, produzido pela passagem dos órgãos fonadores e articuladores de uma posição para outra (p.ex., na fala carioca, entre uma vogal e uma chiante final é pronunciada a semivogal [i], que é um glide: n[ói]s 'nós', p[ai]s 'paz' etc., por influência da chiante que, como o [i], é pronunciada perto do palato duro) 2 m.q. semivogal" In. Instituto Antônio Houaiss, Houaiss: Dicionário Eletrônico, v. 1.0, Editora Objectiva, Ltda, 2001
Tanto os substantivos como os adjectivos podem dividir-se em número, género e grau. Vejamos o primeiro.
"Número
Quanto à flexão de número os substantivos podem estar:
a) no SINGULAR, quando designam um ser único, ou um conjunto de seres considerados como um todo (SUBSTANTIVO COLECTIVO):
aluno cão mesa povo manada tropa
b) no PLURAL, quando designam mais de um ser, ou mais de um desses conjuntos orgânicos
alunos cães mesas povos manadas tropas
Formação do Plural:
Substantivos terminados em vogal ou ditongo
Regra geral:
O plural dos substantivos terminados em vogal ou ditongo forma-se acrescentando-se -s ao singular
(...) estante - estantes; pai - pais; lei - leis; chapéu - chapéus (...)
Incluem-se nesta regra os substantivos terminados em vogal nasal. Como a nasalidade das vogais /e/, /i/, /o/e /u/, em posição final, é representada graficamente por -m, e não se pode escrever -ms, muda-se o -m em -n. Assim: bem faz no plural bens; (...) som faz sons (...)
Regras especiais:
1- Os substantivos terminados em -ão formam o plural de três maneiras
2-Para alguns substantivos finalizados em -ão, não há ainda uma forma de plural definitivamente fixada, note-se porém, na linguagem corrente, uma preferência sensível pela formação mais comum em -ões. É o caso dos seguintes:
Adaptado para um nível inicial A1/A2 Tema: Horas do dia e formas de cumprimento Compreensão escrita e conversação:
O dia divide-se em três partes essenciais: a manhã, a tarde e a noite. A manhã é o período desde o levantar do sol até ao meio-dia. Durante a manhã, as pessoas costumam dizer, ao cumprimentar-se, "Bom dia!"
Já à tarde, ao encontrarem-se com alguém, dizem "Boa tarde!". A partir do meio dia, e até o sol se pôr, é de tarde.
Depois vem a noite. Esta é a altura de ir dormir. Mas não antes das pessoas dizerem "Boa noite!" umas às outras.
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá a falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
Luís de Camões : "Verdes são os campos"
Verdes são os campos, De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração.
Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração.
Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração.
Luis Vaz de Camões: "O dia em que eu nasci, moura e pereça"
O dia em que eu nasci, moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar, Não torne mais ao mundo e, se tornar, Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se lhe escureça, Mostre o mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu!
Bocage: "A Camões, comparando com os dele os seus próprios infortúnios"
Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Igual causa nos fez perdendo o Tejo Arrostar co sacrílego gigante:
Como tu, junto ao Ganges sussurrante Da penúria cruel no horror me vejo; Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, Também carpindo estou, saudoso amante:
Lubíbrio, como tu, da sorte dura, Meu fim demando ao Céu, pela certeza De que só terei paz na sepultura:
Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!... Se te imito nos transes da ventura, Não te imito nos dons da natureza.
Cláudio Manuel da Costa: "Soneto V"
Se sou pobre pastor, se não governo Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes; Se em frio, calma, e chuvas inclementes Passo o verão, outono, estio, inverno;
Nem por isso trocara o abrigo terno Desta choça, em que vivo, coas enchentes Dessa grande fortuna: assaz presentes Tenho as paixões desse tormento eterno.
Adorar as traições, amar o engano, Ouvir dos lastimosos o gemido, Passar aflito o dia, o mês, e o ano;
Seja embora prazer; que a meu ouvido Soa melhor a voz do desengano, Que da torpe lisonja o infame ruído.
Florbela Espanca : "Ser Poeta"
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Francisco José Tenreiro : "Canção do Mestiço"
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...
Fernando Pessoa: "Mar português" In Mensagem
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Luís de Camões : "Amor é fogo que arde sem se ver"
"Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
Luís de Camões (1524-1580)
Aníbal Nazaré e Nelson de Barros: "Fado Falado"
Fado Triste Fado negro das vielas Onde a noite quando passa Leva mais tempo a passar Ouve-se a voz Voz inspirada de uma raça Que mundo em fora nos levou Pelo azul do mar Se o fado se canta e chora Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra que desgarra dor bizarra Mãos insofridas, mãos plangentes Mãos frementes e impacientes Mãos desoladas e sombrias Desgraçadas, doentias Quando à traição, ciume e morte E um coração a bater forte
Uma história bem singela Bairro antigo, uma viela Um marinheiro gingão E a Emília cigarreira Que ainda tinha mais virtude Que a própria Rosa Maria Em dia de procissão Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava Trazia-os ele de longe Trazia-os ele do mar Eram bravios e salgados E ao regressar à tardinha O mulherio tagarela De todo o bairro de Alfama Cochichava em segredinho Que os sapatos dele e dela Dormiam muito juntinhos Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília Entrava a lua E a guitarra À esquina de uma rua gemia, Dolente a soluçar. E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra Que desgarra dor bizarra Mãos frementes de desejo Impacientes como um beijo Mãos de fado, de pecado A guitarra a afagar Como um corpo de mulher Para o despir e para o beijar
Mas um dia, Mas um dia santo Deus, ele não veio Ela espera olhando a lua, meu Deus Que sofrer aquele O luar bate nas casas O luar bate na rua Mas não marca a sombra dele Procurou como doida E ao voltar da esquina Viu ele acompanhado Com outra ao lado, de braço dado Gingão, feliz, levião Um ar fadista e bizarro Um cravo atrás da orelha E preso à boca vermelha O que resta de um cigarro Lume e cinza na viela, Ela vê, que homem aquele O lume no peito dela A cinza no olhar dele
E o ciume chegou como lume Queimou, o seu peito a sangrar Foi como vento que veio Labareda atear, a fogueira aumentar Foi a visão infernal A imagem do mal que no bairro surgiu Foi o amor que jurou Que jurou e mentiu Correm vertigens num grito Direito ou maldito que há-de perder Puxa a navalha, canalha Não há quem te valha Tu tens de morrer Há alarido na viela Que mulher aquela Que paixão a sua E cai um corpo sangrando Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas Que não conhecem o rancor Mãos que o fado compreendem e entendem sua dor Mãos que não mentem Quando sentem Outras mãos para acarinhar Mãos que brigam, que castigam Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou Como lume queimou Essas bocas febris Foi um amor que voltou E a desgraça trocou Para ser mais feliz Foi uma luz renascida Um sonho, uma vida De novo a surgir Foi um amor que voltou Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar E o sol a vibrar Tem gritos de cor Há alegria na viela E em cada janela Renasce uma flor Veio o perdão e depois Felizes os dois Lá vão lado a lado E digam lá se pode ou não Falar-se o fado.
(Interpretado e difundido por João Villaret)
Alexandre O'Neill: "Divertimento com sinais ortográficos"
... Em aberto, em suspenso Fica tudo o que digo. E também o que faço é reticente... : Introduzimos, por vezes, Frases nada agradáveis... . Depois de mim maiúscula Ou espaço em branco Contra o qual defendo os textos , Quando estou mal disposta (E estou-o muitas vezes...) Mudo o sentido às frases, Complico tudo... ! Não abuses de mim! ? Serás capaz de responder a tudo o que pergunto? ( ) Quem nos dera bem juntos Sem grandes apartes metidos entre nós! ^ Dou guarida e afecto A vogal que procure um tecto.
Sebastião da Gama : "Pequeno poema"(1945)
Quando eu nasci, ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais… Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu.
As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém…
Pra que o dia fosse enorme. bastava, toda a ternura que olhava nos olhos da minha Mãe…
António Gedeão: "Lágrima de preta"
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara escrava"
Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. Uma graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; É pois nela vivo, É força que viva.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa): "Para ser grande"
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda Brilha, porque alta vive.
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Bibliografia utilizada:
CINTRA, Luís F. Lindley; CUNHA, Celso: Nova gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1997
Conselho da Europa: Quadro Europeu Cumum de Referência para as Línguas, Porto, ASA Editores, 2001
MATEUS, H. Mira et alii: Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 1989