O ensino de uma língua segunda ou uma língua estrangeira deve ser um ensino adequado às necessidades do aprendente. Num mundo multicultural, o contacto com as outras culturas visa-se, não só necessário , mas vital, à mútua compreensão. Para que se permita que a globalização não nos descaracterize na nossa individualidade, e para validar a própria cultura, este é um blog dedicado ao ensino da língua e cultura portuguesa.
O gerúndio tem duas formas: a forma simples e a forma composta. A forma simples obtém-se substituindo-se o sufixo -r do infinitivo pelo sufixo -ndo, isto é, mantendo a vogal temática.
Ex: ama-ndo; corre-ndo; fugi-ndo
Utiliza-se para se referir de uma acção em curso e que tanto pode acontecer imediatamente anterior ou posteriormente, assim como simultâneamente, ao verbo da oração principal. Depende da sua ordem sintáctica:
Ex:
Acabando o trabalho, suspiramos de alívio. Querendo repetir, pedi mais comida.
Vi soluçando o filme, comovida.
Chamou gritando por seu nome.
Apressamos o passo, andando rapidamente. Confidenciou o segredo, contando todos os detalhes.
A forma composta utilizando a forma do gerúndio do verbo "ter" ou "haver" com o particípio do verbo principal. Esta forma mostra uma acção que foi concluída antes do verbo principal da frase.
Ex:
Tendo consentido a sua saída, ela telefonou às amigas. Havendo conseguido o que queria, saiu satisfeito.
Exercício:
Atente ao poema de Vinício de Morais e sublinhe o verbo na forma de gerúndio
O Velho e a flor
Por céus e mares eu andei Vi um poeta e vi um rei Na esperança de saber o que é o amor Ninguém sabia me dizer E eu já queria até morrer Quando um velhinho com uma flor assim falou: O amor é o carinho É o espinho que não se vê em cada flor É a vida quando Chega sangrando Aberta em pétalas de amor
Para ouvir:
Em relação à imagem que se segue transforme a frase, substituindo o verbo na forma de gerúndio pelo verbo lavar, também no gerúndio.
Complete os espaços em branco, utilizando os verbos sugeridos em baixo, na forma do gerúndio.
Adoro passar tempo com os miúdos. Não há nada melhor que ficar _________ de mão dada com eles, ou vê-los _________ com a areia da praia no Verão. Ou ver os seus rostos ________ de alegria quando chego a casa, _________ de imediato para os seus quartos, para me mostrarem a sua nova brincadeira. Infelizmente, nem sempre tenho tempo para eles e ________ não poder estar sempre à sua disposição, mas tenho outros afazeres. No entanto, sei que enquanto não estou com eles, eles ficam __________ novas brincadeiras para me mostrarem. Não ________ correr o risco de mentir, acho que nunca fui tão feliz.
Adaptado para um nível inicial A2 Tema: Quando eu era pequeno Léxico e conversação; Teoria gramatical (Pretérito Imperfeito)
Quando eu era pequeno, eu vivia em Lisboa, em Alvalade. Como os meus pais não tinham muito dinheiro, eu, a minha irmã, a minha mãe e o meu pai vivíamos com a minha avó paterna. Eu andava no colégio São João de Brito, onde estudava, brincava e ria com os meus amigos.
Depois, quando tinha onze anos de idade, mudamos de casa, para o Cacém, periferia de Lisboa, onde os meus pais compraram um apartamento. Não era muito grande, mas pelo menos cada um de nós tinha o seu próprio quarto.
Desde cedo aprendi a fazer tudo sozinho, e por isso, quando saía da escola, eu ia para casa e fazia o meu próprio almoço. Hoje sou um bom cozinheiro pois sempre fui um rapaz habituado a fazer de tudo na cozinha.
Passei a ir para a Escola Gama Barros, mas no nono ano decidi fazer um curso de formação profissional de bancário, e então passei a ir todos os dias estudar em Lisboa, onde ficava a escola profissional.
TEORIA GRAMATICAL: Pretérito Imperfeito
Pretérito Imperfeito - tempo de um passado continuado
O pretérito imperfeito do indicativo é formado a partir do presente do indicativo a que se junta as desinências:
1ª conjugação -ar
Eu ficava Tu ficavas Ele ficava Nós ficávamos Vos ficáveis Eles ficavam
2ª conjugação -er
Eu vivia Tu vivias Ele vivia Nós vivíamos Vos vivíeis Eles comiam
3ª conjugação -ir
Eu ria Tu rias Ele ria Nós ríamos Vos ríeis Eles riam
Nota: É excepção os verbos "ser", "ter", "vir" e "pôr" que por razões etimológicas fazem o imperfeito com "era", "tinha", "vinha" e "punha".
"A própria designação deste tempo - PRETÉRITO IMPERFEITO - ensina-nos um valor fundamental; o de designar um facto passado, mas não concluído (imperfeito = não perfeito, inacabado). Encerra pois uma ideia de continuidade, de duração do processo verbal mais acentuada que outros tempos pretéritos, razão porque se presta essencialmente para descrições e narrações de acontecimentos passados. " In.CINTRA, Luís F. Lindley; CUNHA, Celso: Nova gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1997, p. 450
O pretérito imperfeito refere-se a uma acção do passada mas habitual, durativa e não limitada no tempo.
O pretérito imperfeito é utilizado para:
"Quando, por pensamentos, nos transportarmos a uma época passada e descrevermos o que então era presente: (...)
Para indicar, entre acções simultâneas, a que se estava processando quando sobreveio a outra: (...)
Para denotar uma acção passada habitual ou repetida (IMPERFEITO FREQUENTATIVO): (...)
Para designar factos passados concebidos como contínuos ou permanentes: (...)
Pelo futuro do pretérito, para denotar um facto que seria consequência certa imediata de outro, que não ocorreu, ou não poderia ocorrer: (...)
Pelo presente do indicativo, como forma de polidez para atenuar uma afirmação ou um pedido (IMPERFEITO DE CORTESIA): (...)
Para situar vagamente no tempo contos, lendas, fábulas, etc. (caso em que se usa o imperfeito do verbo ser, com sentido existencial):(...)" Ibiden, p. 450-451 [excepto imagens]
Algumas formas irregulares que deve conhecer:
Verbo Ser no Pretérito Imperfeito (V. Ser Pret. Imperf.)
(Eu) era
(Tu) eras
(Ele/ela) era
(Nós) éramos
(Vós) éreis
(Eles /Elas) eram
+ (A gente*) era
Verbo Ter no Pretérito Imperfeito (V. Ter Pret. Imperf.)
(Eu) tinha
(Tu) tinhas
(Ele/ela) tinha
(Nós) tínhamos
(Vós) tínheis
(Eles /Elas) tinham
+ (A gente*) teve
Verbo Ir no Pretérito Imperfeito (V. Ter Pret. Imperf.)
(Eu) ia
(Tu) ias
(Ele/ela) ia
(Nós) íamos
(Vós) íeis
(Eles /Elas) iam
+ (A gente*) iam
Agora que já aprendeste algumas formas do Pretérito Perfeito do Indicativo, vamos tentar dizer as correspondentes formas dos verbos "fechar","conter" e "abrir".
Exercício:
Diz em que tempo, modo pessoa e género se encontram os verbos da frase que acompanha a imagem em baixo.
Ouve a música e preenche os espaços em branco:
In. Rosa dos Ventos "Quando eu era pequenina"(Música Tradicional Portuguesa), Mafra, Noites da cigarra 2007
Quando eu ____________ pequenina, Acabada de nascer. Ainda mal ____________ os olhos, Já _____________ para te ver.
E quando eu já for velhinha, Acabada de morrer. Olha bem para os meus olhos: Sem vida hão de te ver.
Vê o ouve a entrevista e diz qual das afirmações são verdadeiras ou falsas:
In. "As tardes da Julia", TVI
A Micaela levou a fotografia dos filhos para o programa.
A Micaela levou algo pessoal para o programa.
A Micaela pertenceu aos Onda Choc.
Toda a gente da idade dela quer estar integrada nesse grupo.
O disco chamava-se "Não tenho idade para amar-te"
Ela tinha dez anos quando participou no disco.
Ela tinha vontade de participar no mundo da música.
Ela aprendeu, com os Onda Choc, a cantar e a tocar um instrumento.
Ela tinha saudades dos Onda Choc.
Ela acha que, hoje em dia, faz falta este tipo de grupos musicais.
O filho da Micaela também canta num grupo como os Onda Choc.
Preenche os espaços em branco, com as formas do pretérito:
"_________(andar) eu sem ter onde cair vivo
_____(ir) procurar abrigo nas frases estudadas do senhor doutor
Ai de mim não era nada daquilo que eu _______ (querer)
Ninguém se _____________(compreender) e eu _______ (ver) que a coisa ______(ir) de mal a pior
Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar
___________ (andar) eu sozinho a tremer de frio
______ (ir) procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Mas _____________-me (esquecer) de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me _________ (largar) da mão nem um minuto sequer(...)"
«Na terra dos Sonhos» In. Jorge Palma: , "Qualquer Coisa Pá Música", Editora Danova, 1979
Complete o texto utilizando as formas verbais do passado adequadas (pretérito perfeito e imperfeito do indicativo).
Adaptado para um nível inicial A2
Tema: Um passeio por Óbidos
Léxico e conversação; Teoria gramatical (Pretérito Perfeito)
A Susana e o Bruno, durante as férias de Junho de 2007, foram passear por Óbidos. Eles já lá tinham estado antes, mas, para eles, ir a Óbidos é sempre tão agradável que adoram lá voltar. Assim, no dia 21, depararam-se com uma bela surpresa: havia um festival medieval.
Dentro das muralhas da bela cidade, o tema alegrava as ruas. Os dois namorados viram os habitantes e comerciantes vestidos de acordo com essa época, pois eles eram ilustrações vivas desse modo de vida. Por onde quer que se passasse, havia alguém realizando uma tarefa tradicional medieval.
Desde guardas do rei, a nobres, a humildes fiandeiras, havia sempre alguém a mostrar o modo de vida de então. O Bruno e a Susana ficaram muito impressionados pela organização deste evento, que contava com a participação de miúdos e graúdos.
Nas ruas eles viram à venda artesanato local, pequenas espadas e escudos de madeira, cestos de vime, muita comida como broas, ou compotas tradicionais, e é claro, como não podia deixar de ser, a famosa e tradicional ginjinha de Óbidos, que provaram com prazer.
Na Praça de Santa Maria, junto ao pelourinho, viram montado uma espécie de praça de torneios, e até experimentaram fazer os jogos que haviam à disposição. O Bruno ganhou umas vezes e a Susana lá conseguiu ganhar outras. Mas divertiram-se muito, os dois.
Os jograis também faziam parte da animação, e alegravam as ruas com as suas cantigas de amor e amigo.
Óbidos é agradável de descobrir todo o ano. E é por detrás dos mais insuspeitos portões que encontraram os mais belos recantos.
Perto da Igreja de São Pedro viram a comitiva de um casamento, e do lado de fora, esperava pelos noivos um belo coche com dois belos cavalos que se deixaram cumprimentar, muito afectuosamente.
Foi um óptimo dia. Até uma suave brisa pareceu vir tornar o dia mais agradável. Nesse dia viveram um dia inesquecível.
TEORIA GRAMATICAL:
Pretérito Perfeito Pretérito Perfeito - tempo de um passado concluído
-ar
Eu deixei
Tu deixaste
Ele deixou
Nós deixamos
Vos deixastes
Eles deixaram
-er
Eu vivi
Tu viveste
Ele viveu
Nós vivemos
Vos vivestes
Eles viveram
-ir
Eu consegui
Tu conseguiste
Ele conseguiu
Nós conseguimos
Vós conseguistes
Eles conseguiram
Nota: O verbo "ver", como verbo irregular, no pretérito prefeito segue o paradigma da 3.ª conjugação. Logo diz-se: eu vi; tu viste; ele/ela viu; nós vimos; vós vistes; eles/elas viram; a gente/você viu.
O Pretérito Perfeito simples refere-se a uma acção executada num tempo passado, concluída, descrita e observada a partir de um ponto presente, mas denotador de uma acção completamente concluída, afastada do presente.
Descreve uma acção não habitual, pontual e limitada temporalmente.
Algumas formas irregulares que deve conhecer:
Verbo Ser no Pretérito Perfeito (V. Ser Pret. Pref.)
(Eu) fui
(Tu) foste
(Ele/ela) foi
(Nós) fomos
(Vós) fostes
(Eles /Elas) foram
+ (A gente*) foi
Verbo Ter no Pretérito Perfeito (V. Ter Pret. Pref.)
(Eu) tive
(Tu) tiveste
(Ele/ela) teve
(Nós) tivemos
(Vós) tivestes
(Eles /Elas) tiveram
+ (A gente*) teve
Verbo Ir no Pretérito Perfeito (V. Ter Pret. Pref.)
(Eu) fui
(Tu) foste
(Ele/ela) foi
(Nós) fomos
(Vós) fostes
(Eles /Elas) foram
+ (A gente*) foi
Agora que já aprendeste algumas formas do Pretérito Perfeito do Indicativo, vamos tentar dizer as correspondentes formas do verbo "levar", "receber" e "ferir"?
Exercício:
Completa o texto utilizando o pretérito perfeito do indicativo das formas verbais sugeridas:
O meu irmão Leandro ________ com a Beatriz ao cinema. Eles __________-me a mim a à Teresa, a minha namorada, mas eu não _______ ir porque ________ de estudar para um exame e a minha namorada ________ comigo. O Leandro ________ o bilhete e a Beatriz _________ as pipocas. Os dois _______ "A ilha dos escravos" e _______ muito deste filme.
Observa o verbo que se segue e conjuga outro verbo, à tua escolha, da mesma conjugação no pretérito perfeito.
Nota: repara que este é um verbo irregular.
Preenche os espaços em branco com as formas do pretérito perfeito do indicativo dos verbos entre parêntesis:
"Mar português"
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te ________ (cruzar), quantas mães _________ (chorar),
Quantos filhos em vão ________ (rezar)!
Quantas noivas _______ (ficar) por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
__________ (valer) a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo ______ (dar),
Mas nele é que _________ (espelhar) o céu.
In PESSOA, Fernando: Mensagem, Braga/Coimbra, Ângelus Novus, 1994
"Leia a seguinte mensagem de correio electrónico que o seu amigo António lhe
enviou:
Responda ao António. Escreva o texto no espaço abaixo. O texto deve ter uma extensão de 50 a 70 palavras.
____________________________________________________________________
"In. Teste de conhecimento de língua portuguesa (maiores de 15 anos), 14 de Abril de 2007
Adaptado para um nível inicial A1/A2 Tema: Meios de transporte e meios de locomoção Léxico e conversação:
Os meios de transporte são muito úteis para podermos-nos deslocar para qualquer lado. Algumas viagens exigem o uso de transportes menos usuais, como o avião, que se usa mais ao viajar grandes distâncias. Mas outros meios de transportes são mais comuns, e utilizam-se no dia-a-dia, como o carro ou o comboio. Se uns são mais económicos, outros saem mais caros a quem os utiliza. E às vezes, poupar no bolso também é poupar na saúde ou poupar o planeta...
Andar a pé (ou marcha)
Andar de bicicleta (ou fazer ciclismo)
Andar de carro (na imagem um carocha)
Andar de eléctrico
Andar de mota (ou fazer motociclismo)
Andar de cacilheiro (atravessar o rio)
Andar de comboio
Andar de metro (no porto o metro anda na superfície)
Andar de metro (subterrâneo)
Andar de avião/ jacto/aeronave
Andar de moto-quatro
Andar de patins
Queres saber mais sobre comboios? Faz o exercício sugerido neste link!
Exercícios:
Diga se é verdadeiro ou falso:
1) Andar a pé não poluí. 2) Andar de carro é económico. 3) Andar de carro faz bem à saúde. 4) Andar de bicicleta poluí mais que andar de moto-quatro. 5) Andar de eléctrico é mais silencioso que andar de comboio. 6) Andar de metro, ajuda a reduzir o trânsito na cidade. 7) Andar de mota é perigoso. 8) No Porto, o metro é de superfície. 9) O avião serve para fazer grandes distâncias. 10) Para fazer cinquenta quilómetros, pode-se ir a pé. 11) Pode-se andar de comboio no interior. 12) Todos devem andar a pé.
Que meios de locomoção utilizas durante a semana?
Assinale se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F).
"A compra de bilhetes efectua-se nos autocarros ou nas máquinas de venda automática de bilhetes. Todos os bilhetes devem ser validados na máquina que se encontra à entrada do autocarro, junto ao motorista.
Só se pode comprar bilhetes nos autocarros.
Os bilhetes são validados dentro do autocarro." In. Teste de conhecimento de língua portuguesa (maiores de 15 anos), 14 de Abril de 2007
As pessoas que vão a um posto de venda da Carris têm de esperar 10 dias úteis para receberem o cartão.
O cartão “Lisboa Viva” custa 7 euros por mês.
É possível utilizar o metro entre as estações Cidade Universitária e Rato antes das 22:50.
O troço encerra porque não há trabalhadores suficientes."
In. Teste de conhecimento de língua portuguesa (maiores de 15 anos), 10 de Novembro de 2007
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá a falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
Luís de Camões : "Verdes são os campos"
Verdes são os campos, De cor de limão: Assim são os olhos Do meu coração.
Campo, que te estendes Com verdura bela; Ovelhas, que nela Vosso pasto tendes, De ervas vos mantendes Que traz o Verão, E eu das lembranças Do meu coração.
Gados que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendereis; Isso que comeis Não são ervas, não: São graças dos olhos Do meu coração.
Luis Vaz de Camões: "O dia em que eu nasci, moura e pereça"
O dia em que eu nasci, moura e pereça, Não o queira jamais o tempo dar, Não torne mais ao mundo e, se tornar, Eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se lhe escureça, Mostre o mundo sinais de se acabar, Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes, As lágrimas no rosto, a cor perdida, Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes, Que este dia deitou ao mundo a vida Mais desgraçada que jamais se viu!
Bocage: "A Camões, comparando com os dele os seus próprios infortúnios"
Camões, grande Camões, quão semelhante Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Igual causa nos fez perdendo o Tejo Arrostar co sacrílego gigante:
Como tu, junto ao Ganges sussurrante Da penúria cruel no horror me vejo; Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, Também carpindo estou, saudoso amante:
Lubíbrio, como tu, da sorte dura, Meu fim demando ao Céu, pela certeza De que só terei paz na sepultura:
Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!... Se te imito nos transes da ventura, Não te imito nos dons da natureza.
Cláudio Manuel da Costa: "Soneto V"
Se sou pobre pastor, se não governo Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes; Se em frio, calma, e chuvas inclementes Passo o verão, outono, estio, inverno;
Nem por isso trocara o abrigo terno Desta choça, em que vivo, coas enchentes Dessa grande fortuna: assaz presentes Tenho as paixões desse tormento eterno.
Adorar as traições, amar o engano, Ouvir dos lastimosos o gemido, Passar aflito o dia, o mês, e o ano;
Seja embora prazer; que a meu ouvido Soa melhor a voz do desengano, Que da torpe lisonja o infame ruído.
Florbela Espanca : "Ser Poeta"
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
Francisco José Tenreiro : "Canção do Mestiço"
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...
Fernando Pessoa: "Mar português" In Mensagem
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.
Luís de Camões : "Amor é fogo que arde sem se ver"
"Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
Luís de Camões (1524-1580)
Aníbal Nazaré e Nelson de Barros: "Fado Falado"
Fado Triste Fado negro das vielas Onde a noite quando passa Leva mais tempo a passar Ouve-se a voz Voz inspirada de uma raça Que mundo em fora nos levou Pelo azul do mar Se o fado se canta e chora Também se pode falar
Mãos doloridas na guitarra que desgarra dor bizarra Mãos insofridas, mãos plangentes Mãos frementes e impacientes Mãos desoladas e sombrias Desgraçadas, doentias Quando à traição, ciume e morte E um coração a bater forte
Uma história bem singela Bairro antigo, uma viela Um marinheiro gingão E a Emília cigarreira Que ainda tinha mais virtude Que a própria Rosa Maria Em dia de procissão Da Senhora da Saúde
Os beijos que ele lhe dava Trazia-os ele de longe Trazia-os ele do mar Eram bravios e salgados E ao regressar à tardinha O mulherio tagarela De todo o bairro de Alfama Cochichava em segredinho Que os sapatos dele e dela Dormiam muito juntinhos Debaixo da mesma cama
Pela janela da Emília Entrava a lua E a guitarra À esquina de uma rua gemia, Dolente a soluçar. E lá em casa:
Mãos amorosas na guitarra Que desgarra dor bizarra Mãos frementes de desejo Impacientes como um beijo Mãos de fado, de pecado A guitarra a afagar Como um corpo de mulher Para o despir e para o beijar
Mas um dia, Mas um dia santo Deus, ele não veio Ela espera olhando a lua, meu Deus Que sofrer aquele O luar bate nas casas O luar bate na rua Mas não marca a sombra dele Procurou como doida E ao voltar da esquina Viu ele acompanhado Com outra ao lado, de braço dado Gingão, feliz, levião Um ar fadista e bizarro Um cravo atrás da orelha E preso à boca vermelha O que resta de um cigarro Lume e cinza na viela, Ela vê, que homem aquele O lume no peito dela A cinza no olhar dele
E o ciume chegou como lume Queimou, o seu peito a sangrar Foi como vento que veio Labareda atear, a fogueira aumentar Foi a visão infernal A imagem do mal que no bairro surgiu Foi o amor que jurou Que jurou e mentiu Correm vertigens num grito Direito ou maldito que há-de perder Puxa a navalha, canalha Não há quem te valha Tu tens de morrer Há alarido na viela Que mulher aquela Que paixão a sua E cai um corpo sangrando Nas pedras da rua
Mãos carinhosas, generosas Que não conhecem o rancor Mãos que o fado compreendem e entendem sua dor Mãos que não mentem Quando sentem Outras mãos para acarinhar Mãos que brigam, que castigam Mas que sabem perdoar
E pouco a pouco o amor regressou Como lume queimou Essas bocas febris Foi um amor que voltou E a desgraça trocou Para ser mais feliz Foi uma luz renascida Um sonho, uma vida De novo a surgir Foi um amor que voltou Que voltou a sorrir
Há gargalhadas no ar E o sol a vibrar Tem gritos de cor Há alegria na viela E em cada janela Renasce uma flor Veio o perdão e depois Felizes os dois Lá vão lado a lado E digam lá se pode ou não Falar-se o fado.
(Interpretado e difundido por João Villaret)
Alexandre O'Neill: "Divertimento com sinais ortográficos"
... Em aberto, em suspenso Fica tudo o que digo. E também o que faço é reticente... : Introduzimos, por vezes, Frases nada agradáveis... . Depois de mim maiúscula Ou espaço em branco Contra o qual defendo os textos , Quando estou mal disposta (E estou-o muitas vezes...) Mudo o sentido às frases, Complico tudo... ! Não abuses de mim! ? Serás capaz de responder a tudo o que pergunto? ( ) Quem nos dera bem juntos Sem grandes apartes metidos entre nós! ^ Dou guarida e afecto A vogal que procure um tecto.
Sebastião da Gama : "Pequeno poema"(1945)
Quando eu nasci, ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais… Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu.
As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém…
Pra que o dia fosse enorme. bastava, toda a ternura que olhava nos olhos da minha Mãe…
António Gedeão: "Lágrima de preta"
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara escrava"
Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. Uma graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; É pois nela vivo, É força que viva.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa): "Para ser grande"
Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda Brilha, porque alta vive.
Este blog não tem fins lucrativos e está abrangido pela protecção legal de Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.No entanto as fotos que encontra neste site não são de minha autoria. Apenas os conteúdos de texto, ou os textos anexados às fotos. As imagens usadas servem para ilustrar e tornar mais agradável a aprendizagem, mas o mérito vai para quem as publicou. Por lapso não tem identificação de autoria, mas desde já agradeço a todos que têm, tal como eu, a vontade de partilhar com os outros o seu bom gosto, a sua boa vontade e o seu saber. A todos esses, um bem haja.
Bibliografia utilizada:
CINTRA, Luís F. Lindley; CUNHA, Celso: Nova gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1997
Conselho da Europa: Quadro Europeu Cumum de Referência para as Línguas, Porto, ASA Editores, 2001
MATEUS, H. Mira et alii: Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 1989